Na aula do dia primeiro de abril eu levei o primeiro filme de uma trilogia de documentários produzidos por Francis Ford Coppola e dirigidos por Godfrey Reggio. O primeiro chama KOYAANISQATSI – A vida em desequilíbrio e é de 1983. O segundo, POWAQQATSI – A vida em transformação, é de 1988. O terceiro chama NAQOYQATSI – A vida como guerra, e é de 2002.
O engraçado é que bem na aula do dia primeiro de abril o tema seria NARRATIVA FICCIONAL. A discussão foi acalorada e girou em torno da questão do real, do ficcional, da verdade, do referente genérico ou particular e todas essas questões mais complexas quando se lida com ficcional x factual. O tema é bastante complicado justamente por ser, aparentemente, muito óbvio. O curta do Jorge Furtado ILHA DAS FLORES, de 1989, é dos filmes que melhor ilustram essa discussão. Em princípio um filme de ficção, Ilha já começa com uma mensagem assim (quadros acompanhados de trilha sonora: O Guarany, de Carlos Gomes, tema de abertura do tradicional programa de rádio A voz do Brasil):





No primeiro quadro já tem uma provocação. O curta de ficção já avisa que não é um filme de ficção. A trilha sonora nos remete a algo “verdadeiro”: O Guarany é a música de abertura de um tradicional programa radiofônico que remete à notícia e, portanto, à verdade e realismo. O nome do programa, A voz do Brasil, reforça a idéia de que é o povo quem vai falar (ou de que alguém irá falar pelo povo). O filme resgata esse imaginário sobre a música e aquilo a que ela remete para nos reforçar a afirmativa inicial, de que não se trata de uma ficção.
No quadro seguinte, outro reforço e outra afirmativa: “Existe um lugar chamado Ilha das Flores”. De fato, existe. Mas se não existisse, a Ilha das Flores também poderia ser o referencial imaginado para um referencial real, que seria um certo aterro sanitário onde as pessoas recolhem qualquer coisa do lixo pro próprio sustento.
Ao dizer que “Deus não existe” (terceiro quadro), o diretor expressa uma idéia que dá o tom de todo o curta. Embora muitas vezes parecendo mais uma historinha cômica sobre uma determinada coisa (sobre o tomate, o mercado, o lucro, a comida, o lixo), Ilha das flores é um filme fortemente engajado em uma crítica social irônica que já é delineada nesse terceiro quadro. Ele nos provoca a pensar: se existe um lugar como a Ilha das Flores, existirá Deus? Além de engajado numa causa social importante, Jorge Furtado propõe, desde esse início até a mensagem final, uma profunda discussão filosófica a respeito do ser humano e suas necessidades básicas.
Ao final do curta, que, talvez com exceção da dona Anete e do Suzuki, apresenta apenas questões reais, o tom de comicidade aplicado desde o início perde o rítmo para a gravidade da situação dos que vivem dos restos dos porcos na Ilha das Flores. Ao encerrar essa pequena narrativa sobre a condição humana, Jorge Furtado insere, junto à locução em off, um arranjo de guitarra de O Guarany. Em off, o texto diz assim (trecho do roteiro final):
(72) O tomate / plantado pelo senhor Suzuki, / trocado por inheiro com o supermercado, / trocado pelo dinheiro que dona
Anete trocou por perfumes extraídos das flores, / recusado para o olho do porco, / jogado no lixo / e recusado pelos porcos como limento / está agora disponível para os seres humanos da Ilha as Flores.
(73) O que coloca os seres humanos da Ilha das Flores depois dos porcos na prioridade de escolha de alimentos é o fato de não erem dinheiro nem dono.
(74) O ser humano se diferencia dos outros animais pelo elencéfalo altamente desenvolvido, pelo polegar opositor e por
ser livre.
(75) Livre é o estado daquele que tem liberdade.
(76) Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não á ninguém que explique e ninguém que não entenda.

Nos créditos finais, a palavra “verdade” aparece para explicar de onde vem um texto dito (o que encerra o filme), esclarecendo que na verdade aquele texto é um texto ficcional. Assim ocorre com a trilha de Carlos Gomes. Dando autoria ao texto dito e ao fundo musical, Jorge Furtado separa tais sentidos daquilo que ele apresenta como não sendo um filme de ficção. Ele procede da mesma forma com relação aos personagens da dona Anete (e família), sua cliente de perfumaria, o Sr. Suzuki e a aluna Ana Luiza, assim como às locações. Dessa forma é que o filme separa o ficcional de todo o conteúdo mais importante. Ou seja, é só assim que ele pode realmente ser assumido como não ficcional. E isso é reiterado quando o último quadro dessa série diz: “O RESTO É VERDADE”. É assim que o filme se afirma comonão ficção mas, principalmente, que afirma a gravidade de tudo o que mostra.


Mais sobre Ilha das Flores aqui.